O livro de Jó é considerado canônico por todas as tradições cristãs e pelo judaísmo. Faz parte dos livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento. A versão utilizada é a Almeida Revista e Corrigida (ARC), fiel ao Texto Massorético Hebraico.
Jó
Capítulo 19 — Jó se queixa da crueldade dos amigos, e confessa a sua fé no Redentor
Então, respondeu Jó e disse:
Até quando afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras?
Já dez vezes me afrontastes; e não vos envergonhais de me infamar.
Embora haja eu realmente errado, comigo fica o meu erro.
Se deveras vos quereis engrandecer contra mim, e me argüis do meu opróbrio,
Sabei então que Deus é o que me transtornou, e com a sua rede me cercou.
Eis que clamo: Violência! E não sou ouvido; grito: Socorro! Porém não há juízo.
O meu caminho ele entrincheirou, e não posso passar; e nas minhas veredas pôs trevas.
Despojou-me da minha glória e tirou-me a coroa da minha cabeça.
Arrancou-me por todos os lados, e vou-me; e arrancou a minha esperança, como a uma árvore.
E fez inflamar contra mim a sua ira, e me reputou como seus adversários.
Juntas vieram as suas tropas, e prepararam o seu caminho contra mim, e se acamparam ao redor da minha tenda.
Pôs longe de mim os meus irmãos, e os meus conhecidos se estranharam de mim.
Os meus parentes me desampararam, e os meus familiares se esqueceram de mim.
Os meus domésticos e as minhas servas me reputaram como estranho; e vim a ser como estranho aos seus olhos.
Chamei o meu servo, e não me respondeu; com a minha boca lhe supliquei.
O meu hálito se fez estranho à minha mulher, e a minha vergonha, aos filhos do meu próprio corpo.
Até os pequeninos me desprezam; e, levantando-me, falam contra mim.
Todos os meus amigos íntimos me abominam; e até os que eu amava se tornaram contra mim.
Os meus ossos se apegaram à minha pele e à minha carne; e escapei com a pele dos meus dentes.
Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim; porque a mão de Deus me tocou.
Por que me perseguis como Deus, e da minha carne não vos fartais?
Quem me dera, pois, que as minhas palavras se escrevessem! Quem me dera que se gravassem num livro!
Que, com pena de ferro e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha!
Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.
E, depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus.
Vê-lo-ei por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros, o verão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior.
Se vós dizeis: Como o havemos de perseguir! Pois a raiz da causa se acha em mim;
Temei vós a espada; porque o furor traz as penas da espada, para saberdes que há um juízo.