A 'Sabedoria de Salomão' é um livro deuterocanônico presente no cânon da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, assim como nas tradições católica e ortodoxa oriental. É considerado apócrifo pelas tradições protestantes. O livro foi originalmente escrito em grego, provavelmente em Alexandria (Egito), e é atribuído tradicionalmente ao rei Salomão, embora estudiosos modernos datem sua composição no século I a.C. ou I d.C. O texto apresenta uma personificação da Sabedoria divina e contrasta o destino dos justos e dos ímpios.
Sabedoria de Salomão
Capítulo 11
Ela fez prosperar as suas obras por intermédio do santo profeta.
Percorreram o deserto inabitado e armaram as suas tendas em lugares intransitáveis.
Resistiram aos inimigos e afugentaram os adversários.
Tiveram sede e invocaram-te, e de um rochedo escarpado lhes foi dada a água, e de uma dura pedra, o refrigério da sua sede.
Porque, pelos mesmos meios com que os seus inimigos foram castigados, eles, na sua necessidade, foram beneficiados.
Em lugar da fonte do rio perene, limpo de sangue e lama,
como punição do decreto do infanticídio, deste-lhes, contra toda a esperança, água em abundância,
mostrando, pela sede que então padeceram, como castigaste os seus adversários.
Com efeito, eles, postos à prova, ainda que por uma correção de misericórdia, souberam quais eram os tormentos dos ímpios, julgados na sua cólera.
Tu provaste os teus, como um pai admoesta, mas condenaste os outros como um rei severo que interroga.
Assim, tanto os que estavam perto como os que estavam longe foram atormentados.
Uma dupla tristeza os invadiu: gemeram com saudades do passado.
Porque, quando souberam que, com os seus próprios suplícios, os outros eram beneficiados, sentiram a intervenção do Senhor.
Aquele que outrora tinham exposto com escárnio e depois abandonado, ficaram admirados com o fim que lhe aconteceu, tendo tido uma sede bem diferente da dos justos.
Em paga pelos seus desvarios de insensatos, pelos quais adoravam répteis irracionais e animais desprezíveis, tu lhes mandaste uma multidão de répteis irracionais para castigo,
a fim de que soubessem que se é punido por aquilo com que se peca.
Com efeito, a tua mão todo-poderosa, que do céu sem forma criou o mundo, não teve dificuldade em mandar contra eles uma multidão de ursos ou leões ferozes,
ou animais desconhecidos, recém-criados, cheios de furor, ou que exalavam um sopro flamejante, ou que espalhavam fedor, ou que, com os olhos, lançavam faíscas assustadoras,
não só os poderiam matar com os seus ataques, mas também destruí-los pelo só aspecto horroroso.
Mas também sem esses animais, eles poderiam cair fulminados por um simples sopro, perseguidos pela justiça e dispersados pelo sopro do teu poder. Tu, porém, governas todas as coisas com medida, número e peso.
Podes usar do teu poder quando queres, e quem pode resistir à força do teu braço?
O mundo inteiro, diante de ti, é como um grão de areia da balança, como uma gota de orvalho matinal que cai sobre a terra.
Podes ter piedade de todos, porque tudo podes; e fechas os olhos aos pecados dos homens, para que se arrependam.
Amas todas as coisas que existem e não odeias nada do que fizeste; porque, se odiasses alguma coisa, não a terias criado.
Como poderia perdurar alguma coisa, se tu não quisesses? Ou como poderia ser conservado o que não foi por ti chamado?
Tu poupas, porém, todas as coisas, porque todas são tuas, Senhor, amigo da vida.