A 'Sabedoria de Salomão' é um livro deuterocanônico presente no cânon da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, assim como nas tradições católica e ortodoxa oriental. É considerado apócrifo pelas tradições protestantes. O livro foi originalmente escrito em grego, provavelmente em Alexandria (Egito), e é atribuído tradicionalmente ao rei Salomão, embora estudiosos modernos datem sua composição no século I a.C. ou I d.C. O texto apresenta uma personificação da Sabedoria divina e contrasta o destino dos justos e dos ímpios.
Sabedoria de Salomão
Capítulo 19
A cólera, porém, sem piedade, os perseguiu até o fim. Deus sabia de antemão o que eles ainda fariam:
depois de lhes ter permitido a partida e os ter apressado com grande empenho, iriam mudar de ideia e persegui-los.
Enquanto ainda estavam de luto e lamentavam junto aos túmulos dos mortos, conceberam outro desatino: perseguir como fugitivos aqueles que tinham suplicado e obrigado a partir.
Uma justa necessidade os levou a esse fim, e fez com que esquecessem o que lhes havia acontecido, para que sofressem o castigo que ainda faltava ao seu tormento,
e o teu povo atravessasse, de modo admirável, um caminho extraordinário, enquanto eles, de modo estranho, encontrassem a morte.
A criação inteira, segundo a sua natureza, foi modelada de novo, obedecendo aos teus preceitos, para que os teus filhos fossem guardados incólumes.
Viu-se a nuvem abrigando o acampamento com sua sombra; viu-se a terra seca surgir onde antes havia água; do mar Vermelho abriu-se um caminho sem obstáculos, e das ondas violentas surgiu uma planície verdejante,
por onde passou todo o povo protegido pela tua mão, contemplando estupendos prodígios.
Eles pastaram como cavalos e saltaram como cordeiros, louvando-te a ti, Senhor, que os libertaste.
Eles ainda se lembravam do que acontecera no tempo da sua peregrinação: como a terra, em vez de animais, produziu mosquitos, e o rio, em vez de peixes, vomitou uma multidão de rãs.
Mais tarde, viram uma nova espécie de aves, quando, movidos pelo apetite, pediram comidas saborosas:
para seu refrigério, subiram do mar codornizes.
Os castigos caíram sobre os pecadores, não sem indícios de violência provocados por trovões; e eles sofreram justamente por causa dos seus próprios males, porque haviam praticado uma odiosa hospitalidade.
Uns recusaram receber hóspedes desconhecidos; outros escravizaram os hóspedes benfeitores.
Não é só isto: algum dia haverá uma visitação para aqueles que, mal recebendo estrangeiros, os escravizaram.
Os outros, porém, depois de os terem acolhido com alegria, os oprimiram com duríssimos trabalhos,
e foram feridos de cegueira como os de Sodoma ao se aproximarem da porta do justo, quando mergulharam numa profunda escuridão, tateando cada um a sua porta.
Pois os elementos, mudando de ordem entre si, como numa harpa os tons variam o ritmo, conservando sempre o mesmo som; o que se pode precisamente verificar pelo exame do que aconteceu.
Os animais terrestres transformaram-se em aquáticos, e os que nadavam passaram para a terra.
O fogo reteve a sua força na água, e a água esqueceu a sua propriedade de apagar.
Por outro lado, as chamas não queimavam os membros frágeis dos animais que lá andavam, nem derretiam o manjar celeste, que, pelo contrário, se tornava derretível como o gelo, para servir de alimento.
Em tudo, Senhor, engrandeceste e glorificaste o teu povo, e não o desamparaste; em todo o tempo e lugar, lhe estiveste presente.