A 'Sabedoria de Salomão' é um livro deuterocanônico presente no cânon da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, assim como nas tradições católica e ortodoxa oriental. É considerado apócrifo pelas tradições protestantes. O livro foi originalmente escrito em grego, provavelmente em Alexandria (Egito), e é atribuído tradicionalmente ao rei Salomão, embora estudiosos modernos datem sua composição no século I a.C. ou I d.C. O texto apresenta uma personificação da Sabedoria divina e contrasta o destino dos justos e dos ímpios.
Sabedoria de Salomão
Capítulo 2
Com efeito, pensavam tortuosamente: «Nossa vida é curta e triste; e não há remédio quando o homem chega ao termo, nem se conhece ninguém que tenha voltado do Hades.
Fomos gerados por acaso, e, depois, seremos como se nunca tivéssemos existido; porque o sopro de nossas narinas é fumaça, e a palavra, uma faísca que se desprende do nosso coração.
Quando ela se apaga, o corpo se torna cinza, e o espírito se dissipa como o ar ligeiro.
Com o tempo, o nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras; a nossa vida passará como vestígio de uma nuvem, e se desvanecerá como a bruma que os raios do sol dissipam, esmagada pelo seu calor.
Um simples passar do tempo é a nossa vida, e não há apelo ao termo.
«Vinde, pois, gozemos dos bens que existem, e usemos da criação com o ardor da juventude.
Embriaguemo-nos com vinho precioso e perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera.
Coroe-mo-nos de botões de rosa antes que murchem.
Ninguém deixe de tomar parte nas nossas alegrias, deixemos por toda parte os sinais da nossa alegria, porque esta é a nossa parte e a nossa sorte.
«Oprimamos o justo que é pobre; não poupemos a viúva, nem respeitemos as cãs do velho.
A nossa força seja a nossa justiça, porque o que é fraco demonstra-se inútil.
«Armemos ciladas ao justo, porque ele nos é incomodo, opõe-se às nossas obras, censura-nos as transgressões da Lei e nos reprova as faltas contra a nossa educação.
Ele gloria-se de possuir o conhecimento de Deus, e chama-se a si mesmo filho do Senhor.
Ele se tornou para nós uma censura aos nossos pensamentos; só o vê-lo já nos é insuportável,
porque sua maneira de viver não é como a dos outros, e seus caminhos são inteiramente diferentes.
Ele nos considera uma moeda falsa, e evita as nossas veredas, como se fôssemos impuros; proclama feliz o destino final dos justos e se gaba de ter a Deus por pai.
«Vejamos se as suas palavras são verdadeiras; experimentemos o que vai acontecer com ele, e veremos qual será o seu fim.
Porque, se o justo é filho de Deus, ele o assistirá e o livrará das mãos dos seus adversários.
Submetamo-lo à infâmia e à tortura, para conhecermos a sua resignação e provarmos a sua paciência.
Condenemo-lo a uma morte vergonhosa, porque, segundo suas palavras, Deus cuidará dele.»
É assim que eles raciocinam, e se enganam, porque a sua malícia os cega.
Eles não conhecem os mistérios de Deus, nem esperam a recompensa da santidade, nem crêem na recompensa das almas imaculadas.
Porque Deus criou o homem para a incorruptibilidade, e fê-lo imagem da sua própria natureza.
Foi por inveja do Diabo que a morte entrou no mundo, e os que pertencem a ele é que a experimentam.