A 'Sabedoria de Salomão' é um livro deuterocanônico presente no cânon da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, assim como nas tradições católica e ortodoxa oriental. É considerado apócrifo pelas tradições protestantes. O livro foi originalmente escrito em grego, provavelmente em Alexandria (Egito), e é atribuído tradicionalmente ao rei Salomão, embora estudiosos modernos datem sua composição no século I a.C. ou I d.C. O texto apresenta uma personificação da Sabedoria divina e contrasta o destino dos justos e dos ímpios.
Sabedoria de Salomão
Capítulo 5
Então o justo se apresentará cheio de confiança diante daqueles que o afligiram e desprezaram os seus trabalhos.
Ao vê-lo, ficarão agitados de pavor espantoso, e se admirarão da salvação inesperada.
Dizendo entre si, arrependidos e gemendo de angústia de espírito: «Eis aquele que outrora foi objeto de chacota e de insulto!
Nós, insensatos, tínhamos a sua vida por loucura e a sua morte por um fim ignominioso.
Como, agora, ele é contado entre os filhos de Deus e a sua herança está entre os santos?
Portanto, nós nos desviamos do caminho da verdade, e a luz da justiça não brilhou para nós, nem o sol nasceu para nós.
Satura mo-nos dos caminhos da iniqüidade e da perdição; andamos por desertos intransitáveis, mas desconhecíamos o caminho do Senhor.
Para que nos serviu a nossa arrogância? Que nos trouxe de lucro a riqueza acompanhada de orgulho?
Tudo isso passou como uma sombra, como notícia que passa rapidamente,
como o navio que sulca as ondas agitadas, e, ao passar, não se lhe descobre o vestígio, nem a esteira da quilha nas vagas;
ou como o pássaro que voa pelo ar, e dele não se descobre nenhum sinal do seu caminho; mas, ferindo o ar ligeiro com o bater das asas, e rasgando-o com o violento impulso, prossegue agitando as asas; depois disso, nenhum sinal do seu trajeto se encontra;
ou como a flecha lançada ao alvo, o ar, logo partido, se fecha imediatamente atrás dela, de modo que se desconhece a sua trajetória.
Assim nós também, depois de nascidos, deixamos de existir, e não pudemos mostrar nenhum sinal de virtude, mas nos consumimos na nossa malícia.»
Porque a esperança do ímpio é como o farelo que o vento leva, como a espuma ligeira que a tempestade dispersa, como a fumaça que o vento espalha, e passa como a recordação do hóspede de um dia.
Os justos, porém, vivem para sempre; a sua recompensa está no Senhor e o Altíssimo cuida deles.
Por isso, receberão da mão do Senhor um reino magnífico e uma coroa esplendorosa. Com a sua destra, ele os cobrirá e com o seu braço os protegerá.
Ele tomará o seu zelo por armadura, e fará da criação uma arma para repelir os inimigos;
vestirá a justiça como couraça, e colocará sobre a cabeça o julgamento sem fingimento como elmo;
tomará a santidade invencível por escudo,
e cortante ira forjará como espada; com ela o mundo combaterá contra os insensatos.
Os raios certeiros, como dardos, partirão das nuvens, e do arco para o alvo voarão, precipitando-se,
e pedras de granizo carregadas de cólera serão atiradas como de uma funda; se encolerizará contra eles o mar, e os rios os submergirão impetuosamente;
um forte vento se levantará contra eles e os dispersará como um furacão. A iniqüidade tornará deserta a terra toda, e a malícia derrubará os tronos dos poderosos.