A 'Sabedoria de Salomão' é um livro deuterocanônico presente no cânon da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, assim como nas tradições católica e ortodoxa oriental. É considerado apócrifo pelas tradições protestantes. O livro foi originalmente escrito em grego, provavelmente em Alexandria (Egito), e é atribuído tradicionalmente ao rei Salomão, embora estudiosos modernos datem sua composição no século I a.C. ou I d.C. O texto apresenta uma personificação da Sabedoria divina e contrasta o destino dos justos e dos ímpios.
Sabedoria de Salomão
Capítulo 8
Ela se estende poderosa de um extremo ao outro do mundo, e governa o universo para seu bem.
Amei-a e busquei-a desde a minha mocidade, e procurei tomar por esposa; apaixonei-me por sua beleza.
Ela glorifica a sua origem, vivendo com Deus, e o Senhor de todas as coisas a amou.
Iniciada está ela na ciência de Deus, e por ela são escolhidas as suas obras.
Se as riquezas são na vida um bem desejável, que há de mais rico do que a Sabedoria, que tudo produz?
Se a inteligência é uma obra-prima, ela, que é a operária do universo, é mais que todas, a artista.
Se alguém ama a justiça, as virtudes são o fruto do seu trabalho; pois ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a coragem, das quais os homens não podem ter maior utilidade na vida.
Se alguém ambiciona muita experiência, ela conhece o passado e adivinha o futuro; ela sabe o sentido das palavras e a solução dos enigmas; conhece com antecipação os sinais e os prodígios, e o desenrolar das estações e dos tempos.
Resolvi, pois, trazê-la para junto de mim, certa de que ela me seria conselheira no que há de bom, e reconforto na minha ansiedade e na minha dor.
Por causa dela, terei glória entre o povo e honra diante dos anciãos, ainda que jovem.
Descobrir-me-ão perspicaz no julgar; os poderosos me admirarão.
Quando eu me calar, eles esperarão; quando eu falar, prestar-me-ão atenção; se eu falar por muito tempo, porão a mão na boca.
Por causa dela, alcançarei a imortalidade e deixarei uma lembrança eterna aos que me sucederem.
Governarei os povos, e as nações me serão sujeitas.
Tiranos temíveis, ao me ouvirem, terão medo; no meio do povo, mostrarei que sou bom, e na guerra, corajoso.
Quando eu entrar em minha casa, ao lado dela, encontrarei repouso, porque a sua companhia não tem amargura, nem pesar, a sua intimidade, mas sim alegria e prazer.
Tendo refletido sobre estas coisas, e considerando que a aliança com a Sabedoria traz a imortalidade,
que a sua amizade proporciona um nobre prazer, as riquezas do seu trabalho, a glória, e a freqüência à sua conversa, a inteligência; procurei um meio de a obter para mim.
Eu era uma criança de talento; tive por sorte uma boa alma,
ou melhor, sendo bom, entrei num corpo sem mancha.
Mas percebi que não conseguiria possuir a Sabedoria, senão por um dom de Deus; e já era uma prova de inteligência saber de quem viria esse dom. Dirigi-me, pois, ao Senhor e lhe roguei, e disse de todo o meu coração: