Säqoqawä Eremyas é o nome etíope para o Livro das Lamentações, tradicionalmente atribuído ao profeta Jeremias. Na tradição da Igreja Ortodoxa Tewahedo, este livro é considerado parte integrante do grupo de escritos associados a Jeremias, frequentemente incluído como uma continuação do próprio livro de Jeremias ou como um volume separado imediatamente após ele. O livro consiste em cinco poemas de lamento sobre a destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C.
Säqoqawä Eremyas (Lamentações)
Capítulo 1 — A Solidão de Sião
Como está assentada solitária aquela cidade, tão populosa! Tornou-se como viúva a que era grande entre as nações; a princesa entre as províncias ficou debaixo de tributo.
Chora amargamente de noite, e as suas lágrimas correm pelas suas faces; não tem quem a console entre todos os seus amantes; todos os seus amigos se houveram aleivosamente com ela, tornaram-se seus inimigos.
Judá foi levada para o cativeiro por causa da aflição, e por causa da grandeza da servidão; ela habita entre os gentios, não acha descanso; todos os seus perseguidores a alcançaram entre as suas angústias.
Os caminhos de Sião choram, porque não há quem venha à festa solene; todas as suas portas estão desoladas; os seus sacerdotes suspiram, as suas virgens estão tristes; e ela mesma tem amargura.
Os seus adversários são a cabeça, os seus inimigos prosperam; porque o Senhor a afligiu por causa da multidão das suas transgressões; os seus meninos vão em cativeiro diante do adversário.
E da filha de Sião se foi toda a sua formosura; os seus príncipes são como corços que não acham pasto e caminham sem força diante do perseguidor.
Jerusalém lembrou-se dos dias da sua aflição e das suas misérias, de todas as suas coisas desejáveis, que tivera desde os tempos antigos; quando caiu o seu povo na mão do adversário, e ninguém a socorria; os adversários a viram e se riram da sua queda.
Jerusalém gravemente pecou; por isso se fez errante; todos os que a honravam a desprezaram, porque viram a sua nudez; ela também suspira e volta para trás.
A sua imundícia está nas suas fraldas; não se lembra do seu fim; por isso foi assombrosamente abatida, não tem consolador; vê, Senhor, a minha aflição, porque o inimigo se engrandece.
Estendeu o adversário a sua mão a todas as suas coisas mais preciosas; pois ela viu entrar no seu santuário os gentios, acerca dos quais mandaste que não entrassem na tua congregação.
Todo o seu povo anda suspirando, buscando o pão; deram as suas coisas mais preciosas por mantimento para restaurar a vida; vê, Senhor, e contempla, porque me tornei vil.
Nada vos move, vós todos que passais pelo caminho? Atendei e vede se há dor como a minha dor, que veio sobre mim, com que o Senhor me afligiu, no dia do furor da sua ira.
Desde o alto enviou um fogo nos meus ossos, o qual os domina; estendeu uma rede aos meus pés, fez-me voltar para trás, fez-me assolada e enferma todo o dia.
O jugo das minhas transgressões está ligado pela sua mão; elas estão entretecidas, subiram sobre o meu pescoço; ele abateu a minha força; o Senhor me entregou nas mãos dos que não posso resistir.
O Senhor desprezou todos os meus valentes no meio de mim; convocou contra mim uma assembléia para destruir os meus jovens; o Senhor pisou o lagar da virgem filha de Judá.
Por estas coisas venho chorando; os meus olhos, os meus olhos se desfazem em águas; porque se afastou de mim o consolador que devia restaurar a minha alma; os meus filhos estão desolados, porque o inimigo prevaleceu.
Estende Sião as suas mãos, não há quem a console; o Senhor ordenou acerca de Jacó que os seus inimigos estivessem ao redor dele; Jerusalém é como uma mulher imunda no meio deles.
Justo é o Senhor, porque me rebetei contra o seu mandamento; ouvi, pois, todos os povos, e vede a minha dor; as minhas virgens e os meus jovens foram para o cativeiro.
Chamei os meus amantes, mas eles me enganaram; os meus sacerdotes e os meus anciãos expiraram na cidade, enquanto buscavam mantimento para si para restaurarem a sua vida.
Vê, Senhor, que estou angustiada; as minhas entranhas estão turbadas, o meu coração está revolto dentro de mim, porque tenho sido mui rebelde; fora, a espada me desfilhou, dentro, a morte.
Ouviram que eu gemia, e não há consolador para mim; todos os meus inimigos ouviram o meu mal e alegraram-se de que tu o fizeste; mas farás vir o dia que anunciaste, e eles serão como eu.
Venha toda a sua maldade perante a tua face; e faze-lhes como me fizeste a mim por causa de todas as minhas transgressões; porque os meus suspiros são muitos, e o meu coração está desfalecido.