Säqoqawä Eremyas é o nome etíope para o Livro das Lamentações, tradicionalmente atribuído ao profeta Jeremias. Na tradição da Igreja Ortodoxa Tewahedo, este livro é considerado parte integrante do grupo de escritos associados a Jeremias, frequentemente incluído como uma continuação do próprio livro de Jeremias ou como um volume separado imediatamente após ele. O livro consiste em cinco poemas de lamento sobre a destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C.
Säqoqawä Eremyas (Lamentações)
Capítulo 3 — A Esperança na Misericórdia de Deus
Eu sou o homem que viu a aflição, pela vara do seu furor.
Ele me guiou e me fez andar em trevas, e não na luz.
Ciertamente contra mim ele virou a sua mão todo o dia.
Fez envelhecer a minha carne e a minha pele; quebrou os meus ossos.
Edificou contra mim e me cercou de fel e de trabalho.
Fez-me habitar em lugares tenebrosos, como os que morreram há muito.
Edificou uma parede ao redor de mim, para que não saísse; agravou os meus grilhões.
Ainda quando clamo e grito, ele exclui a minha oração.
Cercou os meus caminhos com pedras lavradas, fez torturadas as minhas veredas.
Foi para mim como urso de emboscada, como leão em esconderijos.
Desviou os meus caminhos, e despedaçou-me, e pôs-me assolado.
Armou o seu arco, e pôs-me como alvo à flecha.
Fez entrar nos meus rins as flechas da sua aljava.
Fui feito um escárnio a todo o meu povo, e a sua canção todo o dia.
Fartou-me de amarguras, enfadou-me de fel.
E quebrou com pedrinhas os meus dentes, cobriu-me de cinza.
E tiraste a minha paz; já me esqueci do que seja bem.
Disse eu: Já pereceu a minha força, como também a minha esperança do Senhor.
Lembra-te da minha aflição e do meu desterro, do absinto e do fel.
Lembrando-me disto, no meu coração, o abato em mim.
Tornarei a trazer isto ao meu coração, portanto, esperarei.
As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim.
Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade.
A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele.
Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca.
Bom é ter esperança e aguardar quieto a salvação do Senhor.
Bom é para o homem levar o jugo na sua mocidade.
Assentar-se-á só e ficará calado, porquanto o pôs sobre ele.
Pôr a sua boca no pó, se porventura ainda há esperança.
Dá a face àquele que o fere; farta-se de afronta.
Porque o Senhor não rejeitará para sempre.
Antes, se entristece a alguém, compadecer-se-á segundo a multidão das suas misericórdias.
Porque não aflige com o coração, nem entristece os filhos dos homens.
Para esmagar debaixo de seus pés a todos os presos da terra,
para perverter o direito do homem perante a face do Altíssimo,
para torcer o direito do homem numa causa contrária, não o viu o Senhor?
Quem é aquele que diz que sucede, quando o Senhor não o ordenou?
Da boca do Altíssimo não sai o mal e o bem?
Por que se queixaria o homem vivente? Queixe-se cada um do seu pecado.
Esquadrinhemos os nossos caminhos, e provemo-los, e convertamo-nos ao Senhor.
Levantemos os nossos corações com as mãos para Deus nos céus, dizendo:
Nós temos prevaricado e temos sido rebeldes; por isso tu não perdoaste.
Coberto de ira nos tens perseguido e nos tens matado, não te apiedaste.
Coberto de nuvens, para que não passe a nossa oração.
Como escória e como rejeitamento nos pões no meio dos povos.
Todos os nossos inimigos abriram contra nós a sua boca.
Temor e cova vieram sobre nós, assolação e destruição.
Torrentes de águas derramam os meus olhos, por causa do quebrantamento da filha do meu povo.
Os meus olhos se derretem e não cessam, porque não há descanso,
até que o Senhor atente e veja desde os céus.
Os meus olhos me afetam a alma, por causa de todas as filhas da minha cidade.
Os que me eram inimigos sem causa me caçaram como a um pássaro.
Cortaram a minha vida no cárcere, e lançaram pedras sobre mim.
As águas correram sobre a minha cabeça; eu disse: Estou cortado.
Invoquei o teu nome, Senhor, desde a cova mais profunda.
A minha voz ouviste; não escondas os teus ouvidos ao meu suspiro, ao meu clamor.
Tu te aproximaste no dia em que te invoquei; disseste: Não temas.
Defendeste, Senhor, a causa da minha alma; resgataste a minha vida.
Viste, Senhor, o meu agravo; julga a minha causa.
Viste toda a sua vingança e todos os seus intentos contra mim.
Ouviste as suas afrontas, ó Senhor, e todos os seus intentos contra mim;
os lábios dos que se levantam contra mim, e os seus pensamentos contra mim todo o dia.
Observa o seu assentar-se e o seu levantar-se; sou a sua canção.
Dá-lhes a recompensa, Senhor, conforme a obra das suas mãos.
Dá-lhes dureza de coração, a tua maldição sobre eles.
Persegue-os com ira e destrói-os de debaixo dos teus céus, ó Senhor.