Säqoqawä Eremyas é o nome etíope para o Livro das Lamentações, tradicionalmente atribuído ao profeta Jeremias. Na tradição da Igreja Ortodoxa Tewahedo, este livro é considerado parte integrante do grupo de escritos associados a Jeremias, frequentemente incluído como uma continuação do próprio livro de Jeremias ou como um volume separado imediatamente após ele. O livro consiste em cinco poemas de lamento sobre a destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C.
Säqoqawä Eremyas (Lamentações)
Capítulo 4 — A Miséria de Sião e a Culpa dos Líderes
Como se escureceu o ouro! Como se mudou o ouro puríssimo! As pedras do santuário estão derramadas pelas esquinas de todas as ruas.
Os preciosos filhos de Sião, comparáveis ao ouro puro, como são estimados como vasos de barro, obra das mãos de oleiro!
Até os chacais apresentam o peito, dão de mamar aos seus filhos; mas a filha do meu povo tornou-se cruel como as avestruzes do deserto.
A língua do que mama, de sede, se pega ao seu paladar; os meninos pedem pão, e ninguém lho dá.
Os que comiam iguarias delicadas agora desfalecem nas ruas; aqueles que se criavam em escarlata agora abraçam montões de esterco.
Pois maior é a maldade da filha do meu povo do que o pecado de Sodoma, que foi subvertida como num momento, e não se atentou para as mãos delas.
Os seus nobres eram mais puros do que a neve, mais brancos do que o leite; mais corados eram os seus corpos do que os rubis, e mais polidos do que a safira.
Mas agora escureceu-se o seu parecer mais do que a fuligem; não são conhecidos nas ruas; a sua pele se lhes pegou aos ossos; secou-se, tornou-se como um pau.
Mais felizes são os que morreram à espada do que os que morrem com a fome, porque estes se vão definindo traspassados, por falta do fruto do campo.
As mãos das mulheres compassivas cozeram os seus filhos; serviram-lhes de mantimento na destruição da filha do meu povo.
Deu o Senhor cumprimento ao seu furor; derramou o ardor da sua ira; e acendeu um fogo em Sião, que consumiu os seus fundamentos.
Nunca os reis da terra, nem os moradores do mundo, creram que o adversário e o inimigo entrassem pelas portas de Jerusalém.
É por causa dos pecados dos seus profetas e das maldades dos seus sacerdotes, que derramaram no meio dela o sangue dos justos.
Andam como cegos nas ruas; estão contaminados com sangue, de modo que não se lhes pode tocar nas suas vestes.
Desviai-vos, imundos, lhes gritaram; desviai-vos, desviai-vos, não toqueis; quando fugiram, também andaram vagueando; disseram entre os gentios: Nunca mais torarão a habitar aqui.
A face do Senhor os espalhou; nunca mais tornará a olhar para eles; não respeitaram o rosto dos sacerdotes, nem se compadeceram dos anciãos.
Os nossos olhos ainda desfaleciam, esperando vão socorro; esperamos com insistência por uma nação que não pode salvar.
Spiaram os nossos passos, de maneira que não podíamos andar pelas nossas ruas; já está perto o nosso fim; os nossos dias estão contados; porque é chegado o nosso fim.
Mais ligeiros foram os nossos perseguidores do que as águias dos céus; sobre os montes nos perseguiram, no deserto nos armaram ciladas.
O nosso rei, a nossa respiração, o ungido do Senhor, foi apanhado nas suas covas, aquele de quem dizíamos: Debaixo da sua sombra viveremos entre os gentios.
Alegra-te e regozija-te, ó filha de Edom, que habitas na terra de Uz; o cálice também passará a ti; embriagar-te-ás e te descobrirás.
Já o castigo da tua maldade se cumpriu, ó filha de Sião; nunca mais te levará para o cativeiro; mas visitará a tua maldade, ó filha de Edom; descobrirá os teus pecados.