Evangelho de Marcos, tradicionalmente atribuído a João Marcos, companheiro de Pedro. Considerado o mais antigo dos evangelhos sinóticos. Aceito por todas as tradições cristãs que seguem o cânon do Novo Testamento.
Marcos
Capítulo 4 — Parábola do semeador e suas explicações. Parábola do grão de mostarda. Jesus acalma a tempestade.
E outra vez começou a ensinar junto do mar, e ajuntou-se a ele uma grande multidão; tanto que, entrando num barco, estava assentado sobre o mar; e toda a multidão estava em terra junto do mar.
E ensinava-lhes muitas coisas por parábolas, e dizia-lhes na sua doutrina:
Ouvi: Eis que o semeador saiu a semear.
E aconteceu que, semeando, uma parte da semente caiu junto do caminho, e vieram as aves e a comeram.
E outra caiu sobre pedregais, onde não havia muita terra; e logo nasceu, porque não tinha terra profunda;
Mas, saindo o sol, queimou-se e secou-se, porque não tinha raiz.
E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto.
E outra caiu em boa terra e dava fruto, que subia e crescia; e um produzia trinta, e outro sessenta, e outro cem.
E disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
E, quando se achou só, os que estavam junto dele com os doze perguntaram-lhe acerca da parábola.
E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora, todas essas coisas se dizem por parábolas,
Para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não se convertam e lhes sejam perdoados os pecados.
E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?
O semeador semeia a palavra.
E os que estão junto do caminho são aqueles em que a palavra é semeada; mas, tendo-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que neles foi semeada.
E do mesmo modo os que recebem a semente sobre pedregais, os quais, quando ouvem a palavra, logo com prazer a recebem;
Não têm, porém, raiz em si mesmos; antes são temporãos; depois, sobrevindo tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam.
E os que recebem a semente entre espinhos são os que ouvem a palavra;
Mas os cuidados deste mundo, e as seduções das riquezas, e a cobiça das outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera;
E os que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra e a recebem, e dão fruto, um trinta, e outro sessenta, e outro cem.
E disse-lhes: Porventura vem a candeia para ser posta debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não é para ser posta no velador?
Porque não há coisa alguma encoberta que não haja de manifestar-se; e não há coisa alguma oculta que não haja de vir à luz.
Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.
E disse-lhes: Atentai no que ouvis. Com a medida com que medis vos medirão a vós, e ser-vos-á ainda acrescentada a vós que ouvis.
Porque ao que tem, ser-lhe-á dado; e ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.
E dizia: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra:
E dormisse, e se levantasse de noite ou de dia, e a semente brotasse e crescesse, não sabendo ele como.
Porque a terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois a espiga, por último o grão cheio na espiga.
E, quando já o fruto se mostra, logo mete a foice, porque está chegada a ceifa.
E dizia: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o representaremos?
É como um grão de mostarda que, quando se semeia na terra, é a mais pequena de todas as sementes que há na terra;
Mas, depois de semeado, cresce e faz-se a maior de todas as hortaliças, e cria grandes ramos, de maneira que as aves do céu podem aninhar debaixo da sua sombra.
E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, conforme o que podiam ouvir;
E sem parábolas não lhes falava; mas, tudo declarava em particular aos seus discípulos.
E naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes: Passemos para o outro lado.
E eles, deixando a multidão, o levaram consigo, assim como estava, no barco; e havia também com ele outros barquinhos.
E levantou-se grande temporal de vento, e as ondas batiam dentro do barco, de modo que já se enchia.
E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada; e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos?
E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e fez-se grande bonança.
E disse-lhes: Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé?
E sentiram grande temor, e diziam uns aos outros: Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?