Evangelho de Marcos, tradicionalmente atribuído a João Marcos, companheiro de Pedro. Considerado o mais antigo dos evangelhos sinóticos. Aceito por todas as tradições cristãs que seguem o cânon do Novo Testamento.
Marcos
Capítulo 6 — Jesus é desprezado em Nazaré. Missão dos doze apóstolos. Morte de João Batista. Multiplicação dos pães. Jesus anda sobre o mar.
E partiu dali, e foi para a sua pátria, e os seus discípulos o seguiram.
E, chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se admiravam, dizendo: Donde lhe vêm estas coisas? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos?
Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, e de José, e de Judas, e de Simão? E não estão aqui conosco as suas irmãs? E escandalizavam-se nele.
E Jesus lhes dizia: Não há profeta sem honra senão na sua pátria, entre os seus parentes e na sua casa.
E não podia fazer ali obra alguma, senão curar poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.
E admirou-se da incredulidade deles. E percorreu as aldeias vizinhas, ensinando.
E chamou a si os doze, e começou a enviá-los a dois e dois, e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos;
E ordenou-lhes que nada tomassem para o caminho, senão somente um bordão; nem alforje, nem pão, nem dinheiro no cinto;
Mas que calçassem alparcas, e que não vestissem duas túnicas.
E dizia-lhes: Em qualquer casa onde entrardes, ficai ali até que dali saiais.
E, se em alguma cidade vos não receberem, nem ouvirem, saindo dali, sacudi o pó que estiver debaixo dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.
E, saindo eles, pregavam que se arrependessem.
E expulsavam muitos demônios, e ungiam muitos enfermos com óleo, e os curavam.
E ouviu isso o rei Herodes (porque o nome de Jesus já se tornara notório), e disse: João, o que batizava, ressuscitou dos mortos; e, por isso, estas maravilhas operam nele.
Outros diziam: É Elias; e outros diziam: É profeta, ou como um dos profetas.
Herodes, porém, ouvindo isto, disse: Este é João, a quem eu mandei degolar; ressuscitou dos mortos.
Porque o mesmo Herodes mandara prender a João e lançara-o no cárcere, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmão, porque havia casado com ela.
Pois João dizia a Herodes: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão.
Por isso, Herodias o tinha entre dentes e queria matá-lo, mas não podia;
Porque Herodes temia a João, sabendo que era varão justo e santo; e guardava-o com segurança; e, ouvindo-o, ficava muito perplexo, mas ouvia-o de boa vontade.
Sobrindo, porém, um dia favorável, em que Herodes, no seu aniversário natalício, dava uma ceia aos seus grandes, aos tribunos e aos principais da Galiléia,
Entrando a filha da mesma Herodias e dançando, e agradando a Herodes e aos que com ele estavam à mesa, disse o rei à jovem: Pede-me o que quiseres, e eu to darei.
E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, até metade do meu reino.
Então, saindo ela, perguntou à sua mãe: Que pedirei? E ela disse: A cabeça de João Batista.
E, entrando apressadamente, pediu-lhe, dizendo: Quero que logo num prato me dês a cabeça de João Batista.
E entristeceu-se muito o rei; todavia, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, não lha quis negar.
E, enviando logo o rei um executor, mandou que lhe trouxessem ali a cabeça de João. E ele foi e o degolou no cárcere;
E trouxe a sua cabeça num prato, e deu-a à jovem, e a jovem deu-a à sua mãe.
E os seus discípulos, ouvindo isto, foram, tomaram o seu corpo e o puseram num sepulcro.
E os apóstolos ajuntaram-se a Jesus e contaram-lhe tudo, tanto o que tinham feito como o que tinham ensinado.
E ele disse-lhes: Vinde vós, aqui à parte, a um lugar deserto, e repousai um pouco. Porque havia muitos que iam e vinham, e não tinham tempo para comer.
E foram sós num barco para um lugar deserto.
E a multidão viu-os partir, e muitos o conheceram; e correram para lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram primeiro do que eles.
E Jesus, saindo, viu uma grande multidão e moveu-se de compaixão para com eles, porque eram como ovelhas que não têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas.
E, como fosse já tarde, os seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: O lugar é deserto, e é já tarde;
Despede-os, para que vão aos campos e aldeias vizinhas comprar pão para si, porque não têm que comer.
Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Dai-lhes vós de comer. E eles disseram-lhe: Iremos, pois, e compraremos duzentos dinheiros de pão para lhes dar de comer?
E ele disse-lhes: Quantos pães tendes? Ide ver. E, sabendo-o, disseram: Cinco pães e dois peixes.
E mandou-lhes que fizessem assentar todos, em grupos, sobre a erva verde.
E assentaram-se repartidos em grupos de cem em cem e de cinqüenta em cinqüenta.
E, tomando ele os cinco pães e os dois peixes, levantando os olhos ao céu, os abençoou, e partiu os pães, e deu-os aos seus discípulos para que os pusessem diante deles; e repartiu os dois peixes por todos.
E todos comeram e ficaram fartos.
E levantaram doze alcofas cheias de pedaços de pão e de peixe.
E os que comeram os pães eram quase cinco mil homens.
E logo obrigou os seus discípulos a subir para o barco, e passar adiante, para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão.
E, tendo-os despedido, foi ao monte a orar.
E, sobrevindo a tarde, estava o barco no meio do mar, e ele, sozinho, em terra.
E viu que se fatigavam a remar, porque o vento lhes era contrário; e pela quarta vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar adiante deles.
Quando eles, porém, o viram andar sobre o mar, pensaram que era um fantasma, e deram grandes gritos.
Porque todos o viram e perturbaram-se; mas logo falou com eles e disse-lhes: Tende bom ânimo, sou eu; não temais.
E subiu para o barco com eles, e o vento se aquietou; e entre si ficaram muito assombrados, e se maravilharam;
Porque não tinham compreendido o milagre dos pães; antes, o seu coração estava endurecido.
E, passando para o outro lado, dirigiram-se à terra de Genesaré, e ali chegaram.
E, saindo eles do barco, logo os seus discípulos o conheceram;
E, correndo toda aquela terra em redor, começaram a trazer em leitos os que estavam enfermos, aonde sabiam que ele estava.
E, onde quer que entrava, ou nas aldeias, ou nas cidades, ou nos campos, punham os enfermos nas ruas e rogavam-lhe que somente os deixassem tocar a orla da sua veste; e todos os que lhe tocavam saravam.